Na Casa Azul, existe uma porta silenciosa, meio esquecida no corredor.
Dizem que ela só se abre por dentro.
Kael ficou diante dela por dias — às vezes com a mão estendida, às vezes apenas sentindo o frio da madeira sob os dedos.
Do outro lado, havia o desconhecido: um quarto de possibilidades, ou talvez de medos antigos.
E foi ali, naquele intervalo entre o desejo e o passo, que Kael percebeu:
O amor, quando é de verdade, não chega como certeza.
Ele treme. Hesita.
Olha pra trás e pra dentro ao mesmo tempo.
Não por falta de coragem — mas porque percebe o tamanho da entrega.
Talvez por isso, diante do amor real, as respostas demorem.
Ninguém atravessa a porta do coração correndo.
Antes, é preciso silenciar, sentir se o campo está seguro, respirar fundo e perguntar em silêncio:
“Posso confiar que não serei invadido, que meu tempo será respeitado, que meu sentir será acolhido?”
Na Casa Azul, toda porta aberta é um pacto:
O de não apressar o outro, nem a si mesmo.
Porque, no fim, não existe amor verdadeiro sem esse pequeno, sublime tremor —
a delicadeza de quem, antes de abrir, pergunta:
Você está pronto? Eu estou pronto?
Talvez seja assim do lado de fora também.
No mundo real, cada mensagem não respondida, cada silêncio que ecoa, é só a alma tentando entender se é seguro, se é tempo, se é amor.
E só atravessa quem treme — mas atravessa inteiro. Wilson C Monteiro
